NotíciasSaúdeUso de cannabis medicinal cresce no Brasil, mas acesso ainda enfrenta barreiras legais e financeiras

Uso de cannabis medicinal cresce no Brasil, mas acesso ainda enfrenta barreiras legais e financeiras

Cannabis medicinal refere-se ao uso de derivados da planta Cannabis sativa para tratar doenças ou aliviar sintomas

| Autor: Ramilton Silva
Uso de cannabis medicinal cresce no Brasil, mas acesso ainda enfrenta barreiras legais e financeiras

Foto: Freepik

O uso da cannabis para fins medicinais tem ganhado espaço no Brasil nos últimos anos, impulsionado pelo aumento das prescrições médicas e pela ampliação das regras sanitárias. Regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o tratamento é permitido exclusivamente para fins terapêuticos e depende de prescrição profissional, autorização e controle rigoroso. O uso recreativo da substância continua proibido no Brasil.

A discussão sobre a cannabis medicinal deixou de ser tema restrito a decisões judiciais isoladas e passou a integrar o debate público sobre políticas de saúde, acesso a medicamentos e direito ao tratamento.

O que é a cannabis medicinal e como ela age no organismo

A cannabis medicinal refere-se ao uso de derivados da planta Cannabis sativa para tratar doenças ou aliviar sintomas. Entre as substâncias mais utilizadas estão o canabidiol (CBD), que não provoca efeitos psicoativos, e o tetraidrocanabinol (THC), que pode causar alterações de percepção, mas também possui propriedades terapêuticas quando administrado de forma controlada.

Esses compostos interagem com o sistema endocanabinoide, mecanismo presente no corpo humano que participa da regulação de funções como dor, sono, apetite, memória e resposta inflamatória. É a partir dessa interação que se explicam os efeitos terapêuticos observados em determinados quadros clínicos.

Indicações médicas e limites científicos

No Brasil, a prescrição ocorre principalmente em casos de epilepsias refratárias — quando as crises não respondem aos tratamentos convencionais —, dor crônica, espasticidade associada à esclerose múltipla e náuseas provocadas por quimioterapia. Também há relatos de uso em alguns pacientes com transtorno do espectro autista, sempre sob avaliação individual.

Especialistas destacam que, embora haja evidências científicas consolidadas para algumas condições, outras aplicações ainda estão em fase de estudo. Por isso, o tratamento deve ser indicado por médico habilitado e acompanhado de forma contínua, com ajuste de dose e monitoramento dos efeitos.

Como funciona o acesso legal no país

O acesso à cannabis medicinal no Brasil é regulamentado e ocorre por diferentes caminhos, todos dependentes de prescrição médica.

Desde 2015, a Anvisa autoriza a importação de produtos à base de cannabis mediante solicitação individual. O paciente deve apresentar receita médica e laudo justificando a necessidade do tratamento por meio do portal Gov.br. Após análise, a agência concede autorização por prazo determinado, que pode ser renovado.

Em 2019, a Anvisa passou a permitir a comercialização de produtos derivados de cannabis em farmácias brasileiras, desde que atendam às exigências sanitárias estabelecidas. A venda ocorre mediante retenção de receita específica, que varia conforme a concentração de THC presente na formulação.

Há ainda casos em que pacientes recorrem ao Poder Judiciário para obter autorização para cultivo próprio ou acesso por meio de associações que produzem óleo de cannabis. Nesses casos, a permissão depende de decisão judicial individual. O plantio doméstico não é liberado de forma automática pela legislação brasileira.

Custos elevados e judicialização

Apesar do avanço regulatório, o custo do tratamento é um dos principais desafios enfrentados pelos pacientes. Muitos produtos disponíveis no mercado são importados e podem representar gasto mensal de milhares de reais, a depender da dosagem e da condição tratada.

Embora existam decisões judiciais que determinam o fornecimento pelo poder público em situações específicas, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não possui uma política nacional ampla e padronizada para distribuição regular desses produtos. Como resultado, cresce o número de ações judiciais relacionadas ao tema.

Crescimento da demanda e debate público

Dados divulgados pela Anvisa nos últimos anos apontam aumento expressivo no número de autorizações para importação e aquisição de produtos à base de cannabis. O crescimento reflete maior aceitação entre profissionais de saúde e pacientes, além da ampliação do debate sobre alternativas terapêuticas.

Ao mesmo tempo, o tema continua cercado por controvérsias, principalmente pela associação histórica da planta ao uso recreativo. Especialistas defendem que a discussão deve ser baseada em evidências científicas e políticas públicas estruturadas, com foco na segurança sanitária e no direito ao tratamento.

Uso medicinal é permitido; recreativo segue proibido

Mesmo com os avanços na regulamentação terapêutica, a legislação brasileira mantém a proibição do uso recreativo da cannabis. A autorização concedida pela Anvisa se restringe exclusivamente a produtos destinados a tratamento médico, sob controle sanitário rigoroso.

O cenário atual indica que a cannabis medicinal deixou de ser uma exceção judicial e passou a ocupar espaço consolidado na área da saúde. No entanto, especialistas apontam que o próximo desafio é ampliar o acesso de forma segura, reduzir custos e fortalecer a produção científica nacional sobre o tema.


 

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