Voto feminino representa maioria do eleitorado e ganha peso na disputa presidencial
Mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro

Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE
O voto feminino deve ocupar um espaço central nas eleições de 2026. As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros e, a menos de dois meses do primeiro turno, aparecem como um dos principais grupos em disputa na corrida pela Presidência da República.
Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que 83.877.126 mulheres estão aptas a votar neste ano. Elas representam 52,84% do eleitorado nacional, contra 47,16% de homens. Em 2022, as mulheres correspondiam a 52,65% dos eleitores.
O tamanho desse eleitorado faz com que pequenas mudanças no comportamento das eleitoras possam representar milhões de votos. A importância, porém, não está apenas na quantidade. Pesquisas de intenção de voto realizadas ao longo de 2026 apontam diferenças significativas entre os resultados obtidos pelos candidatos entre homens e mulheres.
Mulheres são maioria e podem pesar na eleição presidencial
A composição do eleitorado ajuda a explicar por que as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm direcionado parte de suas estratégias para as mulheres.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em agosto, Lula apareceu com vantagem entre as eleitoras. No recorte feminino de um eventual segundo turno contra Flávio, o presidente registrou 47% das intenções de voto, enquanto o senador teve 35%.
Entre os homens, o cenário foi diferente: Flávio alcançou 45%, contra 44% de Lula, em um empate numérico dentro da margem de erro. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 31 de julho e 3 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O resultado não significa que todas as mulheres tenham a mesma preferência eleitoral. O eleitorado feminino é formado por grupos com diferenças de idade, renda, escolaridade, religião, região e posição política. Por isso, especialistas e pesquisas eleitorais tratam o voto feminino como um segmento amplo e heterogêneo.
Ainda assim, a diferença registrada entre homens e mulheres pode ter impacto no resultado final, principalmente em uma eleição presidencial que eventualmente seja decidida por uma margem pequena.
Lula mantém vantagem entre eleitoras
A vantagem de Lula entre as mulheres também apareceu em outros levantamentos realizados durante o ano.
Em uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de julho, em um cenário de segundo turno, o presidente tinha 50% das intenções de voto entre as mulheres, contra 40% de Flávio Bolsonaro. Entre os homens, os números praticamente se invertiam: 46% declararam preferência pelo candidato do PL e 45% por Lula.
A diferença ajuda a explicar o esforço do governo e da pré-campanha petista para manter o apoio feminino.
Em 2026, Lula ampliou a participação em agendas relacionadas às mulheres, com temas como combate à violência, políticas sociais e direitos femininos. Reportagens apontaram também a influência de Janja na ampliação dessa agenda.
Janja assume papel na busca pelo eleitorado feminino
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, passou a ocupar um espaço mais evidente na estratégia de comunicação do governo com as mulheres.
Em agosto, durante a Convenção Nacional do PT, Janja fez um discurso voltado ao eleitorado feminino e afirmou que as mulheres seriam responsáveis pela reeleição de Lula.
“Somos nós, mulheres, que vamos eleger você novamente”, declarou a primeira-dama durante o evento.
A participação de Janja ocorre em um momento em que as pesquisas mostram Lula com vantagem justamente no segmento que representa a maioria do eleitorado.
O papel da primeira-dama, entretanto, também está inserido em um cenário político mais amplo. Em julho, Janja chegou a defender que a proteção e a defesa dos direitos das mulheres deveriam estar acima de divisões ideológicas, declaração que recebeu manifestações positivas inclusive de mulheres ligadas ao campo da direita.
Flávio Bolsonaro tenta diminuir diferença
Do outro lado da disputa, Flávio Bolsonaro também passou a intensificar as iniciativas para conquistar eleitoras.
A pré-campanha do senador apresentou propostas voltadas às mulheres e passou a discutir estratégias para ampliar sua presença nesse segmento. Entre as possibilidades avaliadas esteve inclusive a escolha de uma mulher para ocupar a vice-presidência da chapa.
Em junho, aliados de Flávio defendiam que uma vice mulher poderia ajudar a melhorar a imagem da candidatura junto às eleitoras. O próprio senador afirmou que buscava alguém que pudesse complementar a chapa.
A estratégia ganhou importância diante da diferença apresentada pelas pesquisas. Em um levantamento Genial/Quaest realizado em junho, por exemplo, Lula tinha 41% das intenções de voto entre mulheres no primeiro turno, enquanto Flávio aparecia com 24%.
O desafio da candidatura do PL também foi evidenciado por uma declaração feita em julho por Paulo Figueiredo, influenciador ligado ao grupo político de Eduardo Bolsonaro.
Figueiredo afirmou, durante uma transmissão, que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, especialmente as solteiras, e disse que mulheres casadas tenderiam a acompanhar o voto dos maridos. As declarações provocaram reação de Flávio.
Flávio repudia declaração sobre mulheres
Flávio Bolsonaro tentou se afastar da fala e afirmou que não concordava com o posicionamento do influenciador.
O senador classificou a declaração como “completamente equivocada”, disse que se sentiu ofendido e afirmou que Figueiredo não fazia parte oficialmente de sua campanha.
Ao comentar a dificuldade da direita em conquistar as
eleitoras, Flávio afirmou que o problema estaria na comunicação do próprio grupo político. Segundo ele, seria necessário apresentar propostas capazes de dialogar com as mulheres, e não responsabilizá-las pelo resultado das pesquisas.
O episódio teve repercussão justamente porque ocorreu em meio à tentativa da candidatura de ampliar sua votação entre as mulheres.
Eduardo Bolsonaro também entra no debate
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, também aparece no contexto das discussões envolvendo a estratégia da direita para o eleitorado feminino.
Em junho, durante as articulações para definir o vice de Flávio, Eduardo defendeu publicamente o nome da deputada Julia Zanatta (PL-SC) para ocupar a posição. Em uma publicação, destacou a atuação política da parlamentar e sua defesa de pautas conservadoras.
O nome de uma mulher para a vice-presidência era considerado por setores da campanha uma forma de ampliar o diálogo com o eleitorado feminino. A escolha, porém, terminou com o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice da chapa.
Outro episódio envolvendo Eduardo e a pauta feminina ocorreu em março, quando ele criticou a aprovação pelo Senado do projeto que equiparou a misoginia ao crime de racismo. Flávio havia votado favoravelmente ao texto. A divergência entre os irmãos evidenciou diferenças dentro do próprio campo bolsonarista em relação à legislação relacionada às mulheres.
É importante distinguir, nesse caso, as declarações de Eduardo das falas de Paulo Figueiredo. A afirmação de que mulheres “votam muito mal” foi feita por Figueiredo, e não por Eduardo Bolsonaro. A relação política entre os dois, entretanto, foi mencionada na repercussão do episódio.
Michelle Bolsonaro busca mobilizar eleitoras da direita
Enquanto a campanha de Flávio tenta reduzir a diferença entre homens e mulheres, Michelle Bolsonaro desempenha um papel relevante na mobilização do eleitorado feminino ligado à direita.
A ex-primeira-dama construiu uma atuação política especialmente associada às mulheres conservadoras e evangélicas. Em julho, durante a convenção que oficializou Flávio como candidato à Presidência pelo PL, Michelle participou por vídeo e pediu mobilização das eleitoras.
A atuação de Michelle ganhou ainda mais importância após a crise que envolveu os dois. Mesmo diante das divergências, ela voltou a participar das articulações relacionadas à campanha e passou a defender a necessidade de ampliar o diálogo com as mulheres.
A ex-primeira-dama também havia defendido a presença de uma mulher na vice de Flávio. A possibilidade acabou não sendo concretizada, já que Alfredo Gaspar foi escolhido para a posição.
O voto feminino não é um bloco único
Apesar da relevância estatística, tratar as mulheres como um eleitorado homogêneo pode levar a uma interpretação equivocada da disputa.
As eleitoras têm posições políticas distintas e são influenciadas por fatores como situação econômica, emprego, segurança, saúde, educação, programas sociais, religião e avaliação do governo.
A diferença entre os resultados de homens e mulheres nas pesquisas, portanto, não significa que exista uma preferência feminina uniforme. O que os levantamentos indicam é que, neste momento da corrida eleitoral, Lula apresenta desempenho mais forte entre as mulheres do que entre os homens, enquanto Flávio obtém resultados melhores no eleitorado masculino.
Essa diferença pode ser relevante especialmente porque as mulheres são maioria entre os eleitores.
Eleitoras podem ser decisivas?
Em termos matemáticos, o peso do voto feminino é expressivo. São mais de 83 milhões de eleitoras em um universo de 158,7 milhões de pessoas aptas a votar em outubro.
Isso significa que uma mudança de poucos pontos percentuais entre as mulheres representa um número elevado de votos. Em uma disputa apertada, esse deslocamento pode alterar o equilíbrio entre os candidatos.
O impacto, porém, dependerá também da participação efetiva nas urnas, dos votos válidos, da abstenção e da distribuição regional das preferências.
A campanha oficial começa em 16 de agosto, quando os candidatos poderão pedir votos formalmente. Até lá, Lula e Flávio já vêm direcionando discursos e agendas para conquistar as eleitoras. No dia 8 de agosto, os dois participaram de eventos em São Paulo nos quais abordaram temas relacionados às mulheres.
A disputa pelo eleitorado feminino, portanto, deve se intensificar durante a campanha.
Mais do que representar a maioria numérica do eleitorado, as mulheres chegam às eleições de 2026 como um dos principais segmentos capazes de influenciar a disputa presidencial. Os números das pesquisas mostram uma diferença relevante entre homens e mulheres, mas também indicam que o cenário ainda está sujeito a mudanças.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a capacidade dos candidatos de dialogar com diferentes perfis de eleitoras poderá ser um dos fatores observados ao longo da campanha. O resultado, contudo, dependerá da soma de todos os segmentos do eleitorado e não apenas do voto feminino.
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