De Divinópolis às urnas: quem é Ana Elisa, a jovem que conquistou mais de 524 mil votos em Minas Gerais
Aos 21 anos, estudante de Direito e influenciadora política, Ana Elisa Santos Silva construiu sua trajetória nas redes sociais, tornou-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e agora enfrenta os desafios de uma carreira política em ascensão

Foto: @anaelisast
Aos 21 anos, Ana Elisa Santos Silva passou de estudante de Direito e criadora de conteúdo político a uma das figuras mais comentadas das eleições de 2026. Filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), a mineira conquistou 524.219 votos para deputada federal, resultado que a colocou como a segunda candidata mais votada para o cargo em Minas Gerais, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). A votação também estabeleceu um recorde: ela se tornou a mulher mais votada da história do estado para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no país.
O resultado foi alcançado em sua primeira disputa eleitoral, depois de uma trajetória construída principalmente na internet. Com vídeos sobre racismo, feminismo, direitos sociais e política, Ana Elisa ganhou espaço entre usuários que acompanham o debate público nas redes. A repercussão de seu conteúdo ajudou a transformar uma presença digital em capital eleitoral.
Uma trajetória que começa em Divinópolis
Natural de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, Ana Elisa cresceu em uma família marcada pela valorização da educação e pela participação em espaços de mobilização social. Filha de Maria Emília Silva, professora e mãe solo, ela estudou na rede pública de ensino e concluiu o ensino médio na Escola Estadual Joaquim Nabuco, em sua cidade natal.
Em reportagem publicada pelo jornal Estado de Minas, professores e pessoas próximas à jovem relataram que o interesse por questões sociais e políticas já aparecia durante a vida escolar. A professora de português e literatura Janine Lorenzo descreveu Ana Elisa como uma aluna participativa, curiosa e disposta a questionar os conteúdos discutidos em sala.
Segundo a docente, a estudante demonstrava facilidade para abordar questões raciais e discutir o racismo estrutural com colegas e professores. A disposição para defender suas opiniões também foi lembrada por amigas que acompanharam sua formação.
A influência familiar aparece como outro elemento importante dessa trajetória. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Ana Elisa afirmou que acompanhava atividades sindicais com a mãe antes de começar a produzir conteúdo político para as redes sociais. Esse contato contribuiu para aproximá-la de debates sobre educação, direitos sociais e organização política.
A participação em tradições culturais e religiosas afro-brasileiras também faz parte de sua história. Desde a infância, Ana Elisa frequenta o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, manifestação cultural e religiosa ligada à memória e à resistência das comunidades negras mineiras. Ela também participa da tradição do Moçambique Santa Efigênia, vinculada à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, em Divinópolis.
A trajetória escolar, a convivência com movimentos sociais e a participação comunitária ajudam a contextualizar o repertório que mais tarde passou a aparecer em seus vídeos e posicionamentos políticos.
Das redes sociais à política
Antes de disputar uma eleição, Ana Elisa já havia construído uma audiência expressiva na internet. Seus conteúdos abordavam temas como racismo, feminismo, educação, direitos trabalhistas e disputas ideológicas. A jovem também ganhou visibilidade ao responder a políticos e influenciadores identificados com a direita, formato que ampliou o alcance de suas publicações.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em 30 de setembro, ela afirmou que vinha crescendo havia mais de um ano com debates políticos e jurídicos nas plataformas digitais. Naquele período, acumulava aproximadamente um milhão de seguidores no Instagram.
O crescimento chamou a atenção do Partido dos Trabalhadores. Em março de 2026, Ana Elisa se filiou à legenda e recebeu o convite para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. Para participar da disputa, deixou o estágio que realizava no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), onde recebia, segundo entrevista concedida à Folha, R$ 1.700 mensais.
A entrada na política institucional ocorreu, portanto, depois da consolidação de uma identidade pública como criadora de conteúdo. Em vez de começar a carreira por meio de um mandato municipal ou de uma longa atuação partidária, Ana Elisa chegou à disputa federal com uma audiência já formada e uma comunicação voltada especialmente para o ambiente digital.
Renovação política e representatividade
Durante a campanha, Ana Elisa defendeu a ampliação da participação de jovens na política e criticou a dificuldade de partidos tradicionais em dialogar com a geração mais nova. Em entrevista à Folha, argumentou que a representatividade também depende de as pessoas conseguirem se reconhecer nos espaços de poder.
A discussão está relacionada à sua própria trajetória: uma mulher negra, jovem e formada na rede pública de ensino que passou a ocupar espaço em um debate político frequentemente dominado por figuras com carreiras mais longas.
Entre as propostas apresentadas durante a campanha estão o fim da escala de trabalho 6x1, a redução da jornada sem diminuição salarial, a proteção de trabalhadores de aplicativos e políticas de incentivo ao primeiro emprego. Na educação, ela defendeu mais recursos para universidades e institutos federais, ampliação do programa Pé-de-Meia e a criação de um fundo nacional para financiar o passe livre estudantil.
Na área de igualdade racial e direitos das mulheres, suas propostas incluem cotas no serviço público, fortalecimento das Casas da Mulher Brasileira e linhas de crédito destinadas a mulheres chefes de família.
As propostas foram apresentadas durante a campanha e representam compromissos políticos, não medidas já implementadas. O mandato de Ana Elisa terá início em fevereiro de 2027, quando os deputados federais eleitos serão empossados.
Uma votação histórica na primeira eleição
O desempenho de Ana Elisa nas urnas surpreendeu pela dimensão alcançada em uma primeira candidatura. Ela recebeu 524.219 votos, equivalentes a 4,57% dos votos válidos para deputado federal em Minas Gerais.
O resultado garantiu a segunda maior votação do estado para a Câmara dos Deputados, atrás de Nikolas Ferreira, que recebeu mais de três milhões de votos. Ana Elisa também superou a marca anteriormente registrada por Duda Salabert, que havia obtido 208.332 votos em 2022, tornando-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para o cargo.
A votação ocorreu em uma eleição na qual a presença digital teve papel importante na comunicação entre candidatos e eleitores. No caso de Ana Elisa, a audiência construída antes da campanha permitiu que suas ideias circulassem para além de sua cidade e alcançassem públicos de diferentes regiões do estado.
Após o resultado, a jovem passou a integrar a estratégia de comunicação digital da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Em 7 de outubro, ela esteve em Brasília para se reunir com Lula e outros parlamentares, em uma articulação voltada à comunicação política nas redes sociais.
A aproximação ampliou sua visibilidade nacional e indicou que sua atuação política poderá ultrapassar as pautas diretamente ligadas ao mandato parlamentar.
Ameaças durante a campanha
O crescimento da exposição pública também foi acompanhado por episódios de violência política. Em outubro, Ana Elisa denunciou ter recebido ameaças de morte, estupro e ataques racistas durante a campanha eleitoral. As mensagens foram encaminhadas à Polícia Civil de Minas Gerais.
Uma das mensagens divulgadas pela jovem, recebida por e-mail em 5 de setembro, continha ameaças de violência sexual e referências à Ku Klux Klan, organização supremacista branca dos Estados Unidos. A identificação feita pelo remetente, por si só, não comprova qualquer vínculo real com a organização.
Após o primeiro turno, a deputada eleita afirmou que as ameaças se intensificaram e que sua equipe decidiu desativar sua conta na rede social X. Segundo relato publicado pela Agência Brasil em 9 de outubro, ela disse receber ameaças de morte e violência sexual com frequência.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania solicitou providências para avaliação de risco e acompanhamento do caso por programas de proteção em Minas Gerais. A investigação sobre as ameaças busca identificar os responsáveis.
O episódio expõe um dos desafios enfrentados por mulheres que ocupam espaços políticos: a violência direcionada à atuação pública, com ataques que incluem referências à raça e ao gênero.
Investigação eleitoral e novos desafios
Em 14 de outubro, a Justiça Eleitoral de Minas Gerais determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar publicações atribuídas a Ana Elisa sobre o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O caso envolve mensagens divulgadas entre 24 de setembro e 8 de outubro que afirmavam que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
A representação foi apresentada pela defesa de Flávio Bolsonaro, que alegou possível divulgação de informação falsa durante a campanha. O juiz eleitoral Orlando Israel de Souza reconheceu elementos que justificam a investigação e encaminhou o caso à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral Eleitoral.
A decisão também determinou que a plataforma X preserve as publicações do período analisado. O magistrado, porém, rejeitou o pedido para proibir genericamente Ana Elisa de publicar conteúdos sobre a disputa presidencial.
A controvérsia tem como pano de fundo um projeto de lei apresentado por outro parlamentar há quase duas décadas e posteriormente arquivado. Flávio Bolsonaro nega defender a retirada do título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida e afirma ter sido alvo de desinformação. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também citada no debate, negou participação na divulgação do conteúdo e cobrou provas das acusações feitas contra a entidade.
A investigação está em andamento e não representa uma condenação. Em manifestação divulgada pelo UOL, a assessoria de Ana Elisa afirmou que o processo corre em sigilo e que ela se pronunciaria no momento adequado, após ter acesso aos autos.
O episódio acrescenta uma nova dimensão à trajetória da deputada eleita: além de lidar com a transição de influenciadora para representante política, ela terá de responder às consequências jurídicas e públicas de sua atuação nas redes.
O que esperar do mandato
A eleição de Ana Elisa representa a chegada de uma nova figura à Câmara dos Deputados, com forte presença digital e discurso voltado a direitos sociais, educação, igualdade racial e relações de trabalho. Seu resultado eleitoral demonstra a capacidade de uma campanha concentrada na internet de alcançar uma votação expressiva, mesmo sem uma trajetória anterior em cargos eletivos.
O desafio, a partir de agora, será transformar visibilidade e compromissos de campanha em atuação parlamentar. A efetividade de suas propostas dependerá de articulação política, apresentação de projetos, participação nas comissões e capacidade de construir apoio no Congresso.
A trajetória de Ana Elisa reúne elementos que ajudam a compreender mudanças na comunicação política brasileira: o papel das redes sociais na formação de lideranças, a demanda por renovação geracional e a presença de pautas identitárias e sociais no debate público. Ao mesmo tempo, os episódios recentes mostram que a exposição digital também pode ampliar conflitos, desinformação e riscos à segurança pessoal.
Eleita com mais de meio milhão de votos aos 21 anos, Ana Elisa chega à próxima etapa da carreira sob grande expectativa pública. O resultado eleitoral consolidou seu nome na política mineira; o mandato, que começa em fevereiro de 2027, será o momento de avaliar como essa trajetória se traduzirá em ações concretas no Legislativo.
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